Perspectiva CEDEPE

3 de novembro de 2020

Por que temos poucas mulheres líderes?

Carol Maia

A pesquisa Panorama Mulher, desenvolvida pela Talenses em conjunto com o Insper, revela que a atuação feminina em cargos de liderança deixou muito a desejar em 2019: somente 26% no caso de diretorias, 23% em vice-presidência, 16% como integrantes de conselho deliberativo e 13% no papel de presidentes. Esse último dado conseguiu ser ainda menos expressivo do que o estudo anterior, realizado em 2018, quando 15% das empresas tinham mulheres assumindo a presidência.

Os números falam por si, é indiscutível. Mas o que está por trás desse panorama? Se essa pergunta complexa ainda não intriga, provoca e convida a sociedade a uma revisão de conceitos e condutas, deveria, no mínimo, ser objeto de curiosidade.

Há mais de uma década na sede de respostas e imersa nos estudos do feminino, sinto-me incapaz de ignorar o que o sistema escancara e as razões reais da escassez feminina nos lugares de comando.

O que leva uma mulher ao centro do poder, sem dúvida, é a combinação certa de decisões tomadas ao longo das jornadas pessoal e profissional. Considerando uma parcela feminina importante, é impossível apontar momentos isolados que travam o seu avanço e a distanciam de uma carreira de destaque.

Exatamente por esse aspecto entramos em um labirinto difícil de solucionar, pois ao longo da vida absorvemos e reproduzimos muitos códigos limitados em relação à mulher que acabam sendo enraizados em nossas lógicas e processos diários.

O acesso a espaços limitados, o condicionamento aos comportamentos “permitidos” para uma garota, o foco nos sentimentos acolhedores femininos e a falta de incentivo na busca pelo sucesso, desde a primeira infância, são elementos que em algum instante explicam a pouquíssima representatividade feminina em altas posições no mercado. Só que à medida que chegamos à fase adulta, atravessamos os reais desafios no universo corporativo.
Com eles, esbarramos não só nos efeitos, mas nas causas que formam o labirinto da liderança para muitas mulheres. Entre os vestígios do preconceito, a resistência à figura da mulher que comanda, a não associação das características da natureza feminina ao perfil de dirigente, a injusta divisão das obrigações familiares e o subinvestimento em capital social, vivemos um nó invisível que precisa ser desatado.

E quando isso poderá ser feito, afinal?
Apenas quando as mulheres e as oportunidades de liderar estiverem cara a cara, convivendo harmoniosamente.
Para isso acontecer, o mindset social precisa ser transformado.
Para o mercado encarar as mulheres como potências de negócios, basta o mundo corporativo prestar atenção em tudo que elas vêm fazendo.